DIA DA VISIBILIDADE TRANS: VENTINA É TEMA DE KINGDOM HEARTS 3 EM UMA VERSÃO PORTUGUÊS

No dia 29 de fevereiro de 2004, através do movimento organizado de pessoas trans e travestis e em parceria com o Programa Nacional de Doenças Sexualmente Transmissíveis e aids (DST/aids) do Ministério da Saúde, foi lançado o programa ‘Travesti e Respeito’, marcando o dia da visibilidade trans. Hoje, dezesseis anos depois de uma das primeiras iniciativas voltadas para pessoas transgêneros, artistas trans se colocam em diversos espaços, assumindo uma papel de representatividade no país líder de assassinatos de pessoas trans. A cantora baiana Ventina estreou com seu primeiro álbum Eu Mesma em 2017, com composições próprias e um trabalho original e independente, perpassado por questões pessoais enquanto mulher trans. Seu último lançamento, Não me deixe ir, é uma versão em português da música tema do jogo “Kingdom Hearts III” composta pela própria cantora. O jogo eletrônico foi lançado em janeiro de 2019, parte da série ‘Kingdom Hearts, e tem sua trilha original produzida pelo DJ Skrillex, em parceria com a cantora japonesa Utada Hikaru e o compositor Poo Bear. Ventina lançou em 15 de maio de 2018 o clipe do single Você me ouve chorar?, no qual fala sobre a solidão das pessoas LGBT. A cantora responde algumas de nossas perguntas abaixo.

Como você definiria a música que produz?

[VENTINA] Uma autobiografia sobre mim e sobre pessoas que me cercam, sendo elas vistas pelo minha forma de interpretar o mundo. Música é experienciar e experimentar, então nunca podemos controlar os experimentos, sabe? Quanto mais algo sai natural, mais deve deixar solto e ganhar sua forma. Eu quero que minhas músicas possam ter um significado para outras pessoas, talvez algo divertido, talvez uma representatividade, talvez superação. Eu faço música não só para mim, eu quero que pessoas possam se identificar com minha história, quem sabe eu possa chegar em locais que de outra forma eu não pudesse alcançar.

Qual o impacto de ser artista trans na sua música?

[VENTINA] Eu percebo que há muita exigência por militância, eu compreendo que o momento político que o Brasil se encontra, nos faz ter uma postura mais e mais resiliente e que toquemos em assuntos que doam socialmente. E por muitas vezes, eu percebo que algumas portas estão mais fechadas que outras principalmente de pessoas mais militantes no LGBTs. Eu tenho minhas dores, e acredite são muito profundas, mas de 2018 para 2019, eu vivi um ano muito feliz em minha vida pessoal, e seria grosseiro com tudo que eu vivi ignorar tudo minha experiência em minha arte. E pensar ser artista trans é lembrar que a sigla T normalmente tem um único representando em momentos que celebram a diversidade, então, imagine uma infinidade de possibilidades de ser e existir trans, sendo ocupada por apenas uma pessoa. E o próprio mês da visibilidade trans deixa isso muito nítido pra mim, onde eu não fui convidada para me apresentar em nenhum evento.

Tendo já um CD lançado, o que aprendeu desde o primeiro trabalho e como isso impacta nas suas composições hoje?

[VENTINA] Hoje eu me sinto muito mais forte do que antes, compreende? A artista e mulher que me tornei jamais daria para trás em algumas escolhas como eu fiz, buscaria agradar muito mais minhas escolhas, teria mais paciencia, e com certeza faria contratos com quem faz meus clipes, fui roubada em meu primeiro vídeo clipe. Todo esse processo me fez ver como eu preciso estar mais e mais no controle não só na composição, que eu sempre faço sozinha, mas em tudo, eu preciso estar na frente de tudo. Acho que todo esse aprendizado me fez fazer mais canções, sabe? Eu percebo que toco as pessoas da minha maneira, e também há um feedback do público do que ele quer ouvir de mim, o que espera. Digamos que hoje eu sei o que tem maior ou menor potencial de alcançar mais pessoas, eu sei quando uma música tem um enorme significado para mim e quando a música é maior que eu.

O momento atual reverbera na sua vida artística?

[VENTINA] Acho que o momento que estamos vivendo, em um mundo onde o ódio e o conservadorismo (que se fosse bom, só pensar quem era conservador na escravidão, né? Quem não queria os escravizados livres/humanos), nos traz muito medo, revolta e tristeza. Acho que “Não Me Deixe Ir” fala disso, em como vidas estão indo para outro lugar, porque há um ódio e um discurso de ódio tão grande, e ao mesmo tempo essa música é um pedido de socorro, para que nós possamos pensar que só o amor pode salvar alguém de perder a vida, por vontade própria ou por outros fatores. Eu acredito muito no poder do amor e como ele pode alterar as coisas como vemos, talvez por isso minhas letras sejam tão apaixonadas. Óbvio que virão outras músicas e sim tem duas faixas que talvez tenham essa sensação de… Rebeldia.

Quais são seus planos para o futuro enquanto cantora?

[VENTINA] 2020 vai ser um ano sufocante e eu já consigo sentir por esse começo de ano. Em fevereiro vamos finalmente estrear minha primeira websérie “Entre Versos”, sendo a primeira temporada desse projeto. A ideia da série é contar como é o processo de composição de músicas sejam elas versões como “Não Me Deixe Ir”, ou totalmente autorais como “Tomodachi”.  Uma notícia fresquinha e superexclusiva é que ao final da temporada vai revelar meu próximo single, o nome dele é “Lírio”, vai ser uma música mais explícita e para quem queria militância, vai ter e muita. Mas assim, até lá, me acompanha no Instagram que já tá rolando umas coisinhas, hein!

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Agradeço a Ventina por ter cedido um pouco do seu tempo para gerar essa entrevista. Não é a primeira vez que temos sua participação aqui no blog. O só mais um aleatório deseja todo sucesso do mundo para a mesma. Espero que todos tenham gostado da entrevista, apoiem mais artistas nacionais, apoiem mais as menores, vamos dar espaço para classes que por tanto tempo foram marginalizadas.

Eduardo Mateus (@edu__mateus)
BLOG (@somaisumaleatorio)

 

 

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